MELHORES MOMENTOS DO HORIZONTE 18 FOOD

Autor Cristina Leonhardt 27 de Fevereiro de 2018

Quem esteve conosco no dia 24 de fevereiro, durante o Horizonte 18 Food, teve a oportunidade de parar a sua rotina, refrescar a mente e pensar o mundo dos alimentos em 2018.

 

O que o ano reserva para o mercado em que atuamos foi a grande pergunta do dia – respondida com diferentes visões, a partir das palestras de 5 pensadores e da experiência dos participantes. Ao longo de 8 horas, cerca de 35 pessoas de diferentes esferas do mercado de alimentos (indústria, consultorias de segurança de alimentos, inovação e estratégia, influenciadores, associações de consumidores) discutiram os desafios e caminhos possíveis em 2018.

 

 

DILEMAS ENTRE P&D E MARKETING

O dia começou com a minha fala sobre os Dilemas entre P&D e Marketing – que foi reformulada para responder à seguinte questão: Conveniência ou Integridade? O que o consumidor deseja em 2018?

Trazendo exemplos dos últimos lançamentos brasileiros de alimentos e bebidas, discutimos juntos que o padrão de desenvolvimento da indústria de alimentos – centrado na própria tecnologia – não leva à inovação e impede que a empresa atenda rapidamente às movimentações do mercado consumidor.

Como exemplo de empresa brasileira que trabalha com o paradigma oposto, citei a Hemmer, de Blumenau, que começou como uma empresa de conservas. Hoje a Hemmer produz, além de suas conservas, catchup, molhos, atum, nhoque e até cerveja. É uma empresa que não se centra apenas nas tecnologias (processos, fornecedores, ingredientes, formulações) que domina, mas procura inovar com olho no mercado.

A inovação se beneficia um conjunto de competências pessoais distinto daquelas que se aprende na faculdade. Para 2018, abandonar o pensamento fixo e estar disposto a encarar as incertezas será a competência mais importante para visionários e guardiões de alimentos.

Contudo, não apenas os profissionais precisam mudar – para inovar, as próprias empresas precisam de competências, propósitos e expectativas diferentes do modelo tradicional. Flexibilidade, foco no usuário e um ambiente de experimentação devem entrar no jogo.

Conclui minha fala trazendo exemplos de tecnologias que devem perturbar o mercado de alimentos, como:

  • Impressão 3D
  • Drones
  • Fazendas verticais
  • IOT e sensores portáteis
  • Proteínas Cruelty-free.

Fica, contudo, o alerta: um trabalho de comunicação aberta e entendimento das expectativas do público há que acontecer junto ao desenvolvimento destas tecnologias – porque, se não tiverem aceitação, podem simplesmente não ter mercado. A tecnologia também deve ser desenvolvida com centro no usuário.

 

TENDÊNCIAS REGULATÓRIAS

O evento seguiu com a palestra do co-fundador da Tacta Food School, Dafné Didier, que trouxe um panorama da Agenda Regulatória da Anvisa e Mapa para os próximos anos. Um apaixonado pela legislação de alimentos, Dafné mostrou qual é a agenda regulatória 2017-2020, dividida em 15 temas relacionados a alimentos, e em que estágio se encontra cada um dos temas.

Entre os temas sequer iniciados, encontra-se:

  • Aditivos com alumínio
  • Resíduos de medicamentos veterinários
  • Restrição do uso da gordura trans
  • Programa de Controle de Alergênicos

No próximo estágio, encontra-se em avaliação de impacto regulatório, entre outros, temas quentíssimos que devem fazer a festa do pessoal de Regulatórios nos anos por vir. Temas como:

  • Padrões microbiológicos em alimentos
  • Aditivos para Pescado
  • Rotulagem de Alimentos
  • Propaganda de produtos com quantidades elevadas de açúcar, gordura saturada e trans, sódio, e bebidas com baixo teor nutricional

Já na fase de Consulta Pública, foram apresentadas as 8 consultas públicas abertas no momento, que tratam de temas como a regulação do mercado de suplementos alimentares e carne temperada e pescado.

Neste momento, Dafné fez um importante chamado aos participantes: as consultas públicas são a nossa forma de estar presentes na construção da legislação de alimentos. Não adianta depois chorar que a legislação é difícil e não pode ser atendida, caso não tenhamos participado da sua construção – principalmente quem tem formação técnica na área, e que pode colaborar com dados reais da prática e desafios industriais. (Quer ver este trechinho da palestra? Olha aqui no nosso Instagram.)

As Consultas Públicas já finalizadas encontram-se no processo de consolidação das contribuições da sociedade (será que você fez a sua?). São apenas duas:

  • Aditivos para carnes e produtos cárneos;
  • Aditivos e coadjuvantes de tecnologia para leite em pó;

Como exemplos de legislações já publicadas desta agenda, Dafné trouxe, entre outros:

  • O novo RIISPOA
  • Limites de contaminantes inorgânicos para fórmulas infantis
  • Limites máximos de aditivos para vegetais in natura
  • Identidade e qualidade de peixe congelado.

Por fim, Dafné fez uma reflexão: será que estamos vendo tudo? Será que os órgãos regulatórios acompanham as necessidades do mercado e – principalmente – as necessidades da população? Citando exemplos dos alérgicos (que teriam uma ida facilitada aos supermercados com alertas de ausência no rótulo) e do mercado vegano (não definido e não regulado), o palestrante fez um chamado para a falta de velocidade do processo regulatório, e como ele pode afetar a capacidade inovadora do país.

 

INOVAÇÃO EM TEMPOS ÉPICOS

Cecília D’Alessandro deu sequência, falando sobre Inovação em Tempos Épicos. Nossa professora do módulo de Ferramentas da Inovação, da Formação Avançada em P&D, trouxe uma perspectiva história para este momento que o mundo passa: cada vez mais incerto, menos linear, com mais pessoas, tecnologias disruptivas, maior expectativa de vida e renda.

Além destes fatores mais diretos da incerteza, Cecília falou sobre a elevação da consciência humana, que dão a tônica para a evolução de valores que viemos observando nos últimos anos – e que não apresenta nenhuma previsão de retrocesso. Estamos deixando, como sociedade, um agrupamento de valores de sobrevivência, ordem, autoestima para um novo agrupamento que inclui fazer a diferença e servir ao outro. São mudanças profundas, que alteram a própria forma de vida, e como consequência tem impactos em todos os mercados de consumo.

A estes tempos épicos, nomeou-se com a sigla VUCA: Volatility (volatilidade), Uncertainty (incerteza), Complexity (complexidade) e Ambiguity (ambiguidade). Como exemplos dos impactos do VUCA na área de alimentos, Cecília cita:

  • Carnes de laboratório ou análogas como o alimento do futuro – um questionamento sobre a relação do ser humano com os animais
  • Como os sucos se transformaram de alimento saudável a junk food – um exemplo dos movimentos de santidade/demonização pelos quais muitos alimentos já passaram (e continuarão passando).

Como visões de novas tecnologias em alimentos, forma debatidas as visões da Reimagine Food, Institute for the Future e a ferramenta Zero Hunger da FAO (que você já viu aqui). O que há em comum em todas estas visões é um futuro marcado pela acessibilidade à tecnologia e ultra-personalização do acesso aos alimentos.

Cecília concluiu sua palestra falando sobre o que é inovar nestes tempos épicos, marcados pelo VUCA:

  • Inovar é ter uma bússola, uma direção, e não um mapa com o caminho já pré-traçado;
  • Inovar é aprender, colaborar e formar redes, e não se enclausura dentro das 4 paredes reais ou virtuais das empresas.

 

COMUNICAÇÃO CONFIÁVEL COM O CONSUMIDOR

Palestrando pela primeira vez para a indústria de alimentos, Francine Lima, do canal Do Campo à Mesa, fez uma análise sobre o processo de comunicação, que é um ato envolvendo codificação, transmissão, decodificação e entendimento. Ela ressalta a importância de que a codificação seja feita com base no conhecimento atual ou facilmente obtido pelo receptor – só assim haverá uma comunicação eficaz.

Como exemplo, cita os sinais de trânsito, que devem ser facilmente entendidos por quem dirige e que, sendo diferentes entre os países, causam confusão nos viajantes.

Trazendo para a área de alimentos, Francine desafiou os participantes a realizarem a decodificação de um rótulo de alimento, num estudo de caso ao vivo que abrangeu: a mensagem, o objetivo da marca, a codificação, o objetivo do consumidor, a decodificação e o resultado. A análise se centrou não apenas no rótulo, mas em todo o material informativo do produto, incluindo o site.

Usando um biscoito integral de centeio como exemplo, discutimos temas como o impacto que as imagens causam na decisão de compra, a composição mínima desejada para produtos integrais, a associação de “integral” com redução de peso e o uso de artigos científicos para comprovação de alegações de propriedades funcionais. A própria definição de “integral” está em análise de impacto Regulatório, como vimos na palestra de Dafné Didier.

Francine seguiu sua palestra tratando do tema transparência de alimentos, que é uma das nossas bandeiras na Sra Inovadeira. Ela usa como exemplo a tentativa de entender o que é a farinha integral usada no biscoito acima, com duas respostas de players diferentes do mercado:

  • A primeira empresa, alvo do estudo de caso em questão, considera esta informação confidencial;
  • Uma segunda empresa, por outro lado, informa que utiliza farinhas que são prensadas em uma única passagem em moinhos de pedra, e que só compra de moinhos que garantem tal processo, citando o nome dos mesmos.

Finalizando seu tema, Francine alerta que a comunicação só será transparente caso o emissor (as empresas de alimentos) não tiverem medo de contas as suas verdadeiras histórias – de sucessos e também fracassos.

 

COMO SE PREPARAR PARA ESTE CENÁRIO DESAFIADOR

A sessão de palestras foi concluída com Geórgia Castro, nossa professora da disciplina de Registro de Alimentos na Anvisa, da Formação em Assuntos Regulatórios em Alimentos, tratando do impacto das principais novas legislações que vem por aí para a indústria de alimentos.

Geórgia começou trazendo um panorama sobre as doenças crônicas não transmissíveis, como o crescimento da obesidade no Brasil e no Mundo.

Ela faz um alerta: associação não significa causação. No caso, o aumento das vendas de produtos processados e sua associação ao ganho de peso e à obesidade não apresentam uma correlação de CAUSA E EFEITO, uma vez que outros fatores, como os baixos níveis de atividade física, também estão associados.

O aumento das doenças crônicas não transmissíveis tem se refletido na criação de políticas públicas, sendo um dos mais conhecidos localmente o Guia da Alimentação e Nutrição, do Ministério da Saúde, que cunhou o termo alimento ultraprocessado. Como ações que envolvem também o setor privado, Georgia mostra os acordos de cooperação técnica voluntários entre associações, que visam:

  • Zelar pelo acesso da população a alimentação com quantidades adequadas de gordura, açúcar e sódio;
  • Reduzir a presença de gordura trans nos alimentos;
  • Reduzir o teor de sal e açúcar nos alimentos.

Georgia trouxe os modelos de rotulagem nutricional frontal que estão sendo propostos para a ANVISA, além de exemplos da utilização destes modelos em outros países do mundo. A palestrante fez uma leitura sobre a complexidade de cada proposta, e também sobre a obrigatoriedade (ou não) do uso da rotulagem nutricional frontal nos diferentes países em que ela é adotada.

Refletindo sobre o papel da indústria na saúde pública, a palestrante questiona se apenas a rotulagem nutricional frontal será suficiente para garantir escolhas mais saudáveis – considerando outros fatores culturais e sociais que estão em jogo nesta escolha. O acesso à informação, o crescimento da alimentação fora do lar, a vida constantemente sob pressão e o preço também são barreiras de acesso a esta alimentação mais saudável, que é desejada pela maioria da população.

A palestrante conclui sua fala dizendo que estas mudanças no cenário do consumo de alimentos são tanto uma oportunidade quando um desafio para a indústria de alimentos e lança a dúvida: o futuro da indústria de alimentos é uma certeza ou um mistério?

 

MESA DA INOVAÇÃO DE ALIMENTOS

Após as palestras, os participantes foram convidados para o elemento surpresa do evento: a mesa de Inovação de Alimentos. 8 empresas foram convidadas para demonstrarem seus produtos para os participantes, que puderam ver, na prática, o que está rolando em Inovação Brasil afora. Muito obrigada por estarem presentes!

Amostras de produtos La Vita, Docile, Greenpeople, Puravida, Mestiço Chocolates, Fruta Imperfeita, Divine Chocolates Finos e Roots to Go foram analisadas do ponto de vista de inovação e atendimento à legislação pelos participantes.

E, é claro, tudo pode ser degustado – afinal, estamos falando de alimentos!

A Mesa de Inovação de Alimentos serviu de combustível adicional à etapa mão na massa do nosso evento:

 

CONSTRUINDO JUNTOS

Usando o conteúdo das palestras, a Mesa de Inovação e a própria visão e experiência dos participantes, os grupos foram convidados a responder a uma pergunta central:

 

Qual o principal desafio do mercado de alimentos em 2018?

 

Empregando ferramentas de ideação, como brainstorming silencioso e pensamento abdutivo, os grupos discutiram entre si e definiram uma frase que condensasse o seu pensamento. Ao final, o grande grupo discutiu as propostas que foram apresentadas.

Segundo os participantes, os principais dilemas para o mercado de alimentos em 2018 serão:

  • Focar na educação para pressionar órgãos reguladores, indústrias e governo;
  • Melhorar a comunicação para melhorar o bem-estar e a saudabilidade do consumidor;
  • Desenvolvimento de produtos que atendam às necessidades do consumidor x questões regulatórias x “muitas verdades”.

Um dos grupos, contudo, resumiu este dilema do mercado de alimentos me 2018 a uma única palavra:
 

Conscientização.

 
 
Ela me parece englobar bem o que todos os atores deste mercado precisam: elevar a consciência das indústrias, consumidores, órgãos regulatórios, associações de classe e demais players é o maior desafio de 2018.

 

 

E com o compromisso de trabalhar para melhorar a comunicação, inovar com propósito e olho no usuário, atender e contribuir com a legislação nos despedimos deste primeiro Horizonte 18 Food.

Que venha o Horizonte 19 Food!

Autor

AUTOR

Cristina Leonhardt

Fundadora da Tacta Food School e da Sra Inovadeira. Visionária de Alimentos. Mãe. Professora. Consultora. Viajante.

Ideias malucas me interessam e pessoas que as colocam em prática muito mais!

4 comentários sobre “MELHORES MOMENTOS DO HORIZONTE 18 FOOD

  1. Maravilhoso esse encontro e essa discussão. Parabéns.

    1. Obrigada, Márcia! Ficamos felizes que tenhas gostado!

  2. Foi muito bom!! Vcs arrasaram!

    1. Muito obrigada, Carol! Nós ficamos muito felizes com a tua presença 😉

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